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Castelo da Senhora da Luz
Castelo da Senhora da Luz
A fortaleza de Nossa Senhora da Luz, na Ponta da Calheta, é um dos mais importantes testemunhos de arquitectura militar seiscentista na costa algarvia, e um dos que melhor ilustra a preocupação do Portugal Restaurado em dotar a zona mais meridional do seu território continental de estruturas de defesa.
É certo que muito antes de 1640 aqui existiu uma fortificação, de que, até ao momento, nenhum elemento foi encontrado. Também se desconhece a data de construção desse primitivo reduto: um castelo medieval, para alguns; uma fortaleza edificada em 1575, para outros (DGEMN on-line, 1991); ou uma torre circular, datada de 1624, ainda para um terceiro grupo de autores (COUTINHO, 1997, p.135). Estas duas últimas perspectivas podem ser encaradas em complementariedade, uma vez que situam a primeira fortificação da Ponta da Calheta no período filipino (ou muito próximo dele). Neste sentido, será lícito equacionar uma acção da monarquia espanhola, à semelhança do que aconteceu em numerosos locais da costa algarvia, que por essa altura foram fortificados, para fazer frente às grandes armadas dos países europeus do Norte que (quase invariavelmente) passavam pela costa portuguesa.

A fortaleza que hoje podemos observar, contudo, nada tem de filipino. Ela é o produto do vastíssimo processo de militarização e de fortificação do país, na sequência da Restauração da Independência (1640) e das Guerras então protagonizadas pelos dois reinos peninsulares. Ao contrário da pequena torre de vigia, que se pensa aqui ter existido até essa altura, o projecto joanino promoveu a construção de uma fortaleza de raiz, de características muito particulares e em voga à altura. Com efeito, a opção pela planta poligonal, de quatro baluartes angulosos definindo um quadrilátero irregular que se aproxima da forma estrelada, é um modelo aplicado a numerosas outras fortificações, e é o resultado da aplicação de mecanismos conceptuais e eruditos, ensaiados em grandes complexos defensivos, a fortalezas secundárias. O facto de as obras se terem prolongado até, pelo menos, 1670, é um indicador da importância desta fortaleza e do cuidado com que foi edificada, ocupando uma área de cerca de 200 m2.

Infelizmente, o estado em que hoje se apresenta a quem a visite não revela a grandeza do projecto seiscentista. Os panos de muralha, que inicialmente possuíam 5 metros de altura, foram parcialmente submergidos pelas areias da praia, e uma parte importante deles já desapareceu, restando apenas a secção voltada ao mar. Por outro lado, o interior do recinto foi ocupado por um edifício, de dois pisos e de arquitectura eclética (que conjuga a preocupação cenográfica das amplas fachadas, com um certo carácter fortificado, evocador do local onde se encontra implantado, pela existência de dois torreões nos extremos e de ameias a toda a volta do conjunto), onde funciona, presentemente, um restaurante. Décadas de construções e de remodelações no interior da fortaleza determinaram a supressão da organização dos espaços, que, por uma planta de 1821, incorporava dois grandes pavilhões (COUTINHO, coord., 2001, p.113). Outro tanto tempo de dinâmica construtiva nas imediações determinou a radical alteração da envolvência, com particular impacto para os próprios muros. A fortaleza, todavia, lá se encontra, testemunhando a preocupação das autoridades em defender a cidade de Lagos, nos tempos de corsários, piratas, armadas islâmicas e vizinhança pouco amistosa do lado espanhol.
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